sexta-feira, 24 de julho de 2020

A pandemia e a incerteza sobre o futuro

Há um texto célebre na história do pensamento universal que trata sobre o tempo. Seu autor é Agostinho de Hipona, filósofo de origem africana conhecido como Santo Agostinho, que viveu entre os anos 354 e 430 da nossa era.

Com intuito de levar seus leitores a refletir sobre a vida e ajudá-los a estabelecer o que deve ser prioritário nas ações cotidianas, Agostinho propõe uma profunda reflexão sobre o tempo, tendo como referência os valores cristãos. Para o filósofo, não existe apenas um tempo, mas três! Aquilo que entendemos como “tempo” é, na verdade, um composto de passado, presente e futuro. Quanto ao passado a conclusão é evidente: ele já foi, ficou para trás, não volta mais. Sobre o futuro Agostinho é igualmente enfático: ainda não se concretizou, portanto, assim como o passado ele também não existe.

O que resta? O presente. Ainda assim com toda a sua fragilidade, já que consiste em um instante breve. Na verdade, o presente é uma transição contínua: o futuro, que não existia, passa a existir e, imediatamente, vira passado... Se observarmos uma simples caminhada teremos a imagem adequada do que o filósofo aponta: o passo seguinte se torna passado tão logo alternamos os pés um atrás do outro.

No entanto, o passado continua conosco. Assim como o futuro, de algum modo, também já se apresenta. O aparente paradoxo se resolve do seguinte modo: o passado aparece no presente como memória; o futuro, como projeção. São tempos da mente, sem existência material. O que existe de real é apenas o presente, no qual recordamos o que já foi e projetamos na imaginação o que ainda não é. Uma possível definição de sabedoria seria esta: viver o tempo presente sem apego ao passado e diminuindo ao máximo a ansiedade quanto ao futuro. Um presente assim vivido possibilitaria a preparação para um bom futuro que, uma vez alcançado, transitaria ao passado de forma a nos deixar uma boa memória.

Agostinho não está criando tal reflexão. Ela já existia em outras escolas filosóficas anteriores. E vai voltar muitas vezes ao longo da história. Será fundamental, por exemplo, no desenvolvimento da psicanálise. Mas que importância teria tal reflexão, escrita há tantos séculos, num contexto como o nosso? Por que o tempo se torna um tema tão relevante diante da pandemia pelo coronavirus?

A resposta mais direta, mesmo que não muito agradável é esta: situações de crise extrema evidenciam o óbvio mas que insistimos em não ver em tempos de paz. Em outras palavras: não foi o coronavirus que tornou a vida frágil, passageira e incerta. Ela sempre foi assim. Viver, por si, já é um perigo constante, como lembrava Guimarães Rosa.

Caberia a todos nós, portanto, aproveitar o contexto de pandemia e o consequente isolamento para realizar um balanço da vida, eleger prioridades, abrir mão de futilidades, cultivando o essencial dessa aventura tão fugaz que é a existência. Estaríamos diante do que alguns chamam de janela de oportunidades: a vida nos oferecendo a chance de aperfeiçoamento pessoal e coletivo. Perfeito. Mas nem tanto.

Por dois motivos. Primeiramente, poucos de nós temos condições materiais que propiciem a vivência da pandemia como momento de reflexão. Basta como exemplo o fato de que muitos não tem como trabalhar em casa e, com isso, evitar maior chance de contaminação. A maioria é obrigada a se arriscar dia a dia pela sobrevivência. O correr da semana se tornou uma batalha constante e angustiante. O segundo motivo é mais grave: a reflexão de Agostinho não se aplica ao Brasil. Pelo menos não diretamente. E não é simplesmente porque viveu muito antes de nós existirmos como país. Explico-me melhor.

Tivéssemos superado as marcas históricas da herança colonial, aspectos como a desigualdade social gritante, violência ostensiva à população mais pobre, resquícios do escravismo, sistema educacional deficiente e tantos outros problemas seriam apenas assunto para a memória.  Viveríamos um presente diferente e tais questões fariam parte do passado.

Ocorre que não é assim: o Brasil é um país em que o passado insiste em se reatualizar constantemente. Mudando um pouco os temos de Agostinho, é como se em nosso país não existe presente e nem futuro, apenas o passado revisitado. Condições de vida de antes se repetem; doenças antiquíssimas reaparecem; práticas políticas que imaginamos superadas ressurgem. Os exemplos seriam inumeráveis.

Não me parece que o problema esteja na formulação feita por Agostinho e sim na realidade difícil de nosso país. Oxalá pudéssemos passar pela pandemia com segurança e, com isso, poder refletir sobre seu sentido em nossas vidas. Quem sabe numa situação futura. Por agora, é um salve-se quem puder. Repetimos a velha prática de correr atrás do prejuízo, evitar o tristemente terrível para garantir que se dê “apenas” o terrível. E vamos tomando com naturalidade o número de milhares de mortos que se avoluma. A tal ponto que cem mortos a menos, de um dia para o outro, passa a ser motivo de consolação.

De tragédia em tragédia, vamos improvisando uma vida nacional na qual elementos tão importantes como o bem estar da população, o cuidado com os recursos naturais, segurança alimentar, planejamento econômico subordinado à vida digna como valor, garantia do emprego e da moradia decentes e tantas tarefas que deveriam estar na ordem do dia passam para o segundo plano. Em primeiro lugar os velhos interesses, velhos arranjos, velhas estruturas de poder. E a cada dia novo remendo no pano que se rasga.

Nesta lógica do mal menor, não há projeção sobre o futuro que possa ser feita. Ele está interditado. O presente se consome todo na exaustiva luta contra os fantasmas do passado.

*José Carlos Freire

Professor na UFVJM, campus de Teófilo Otoni.

Fonte: Publicado em 23 de julho de 2020 no Jornal Tribuna Diário no link: https://diariotribuna.com.br/?p=1899


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Eu e a foice. Declaração de guerra

Estamos no meio de uma guerra – numa pandemia, provocada por um novo coronavírus, causador de uma doença denominada COVID-19, que significa doença provocada por corona vírus, ano de 2019. Um vírus atacando com ferocidade a humanidade. O cenário atual mostra milhões de pessoas infectadas em todo o mundo e o número de mortos caminha para um milhão. O conhecimento da situação, como divulgado por organizações/instituições de Saúde Pública, e por Governos de países, diz que o alívio da população só virá com o aparecimento da vacina – sabe Deus quando! Dizem os cientistas que que não há droga comprovadamente efetiva para combater o vírus. A receita é ficar isolado, “não ter contato com outro”, para evitar a contaminação de pessoas e a propagação do vírus. E, então, rezar! Pois a doença é aterrorizadora: em algumas pessoas, parece que a maioria, não acontece nada; em outras pode levar à morte. É a peste, com a sua foice! E cada um de nós, “deve ficar no seu canto”, aguardando “para ver o que acontece” É o isolamento forçado, como aquele que impingimos aos animais, presos no zoológico. E aí descobrimos como é sofrível – mas os bichos não reclamam. Pelo menos disso não sabemos, ou “fazemos de conta que não sabemos”. Nessa situação declaro a minha guerra pessoal ao vírus e ao “sistema”. Seguem o meu raciocínio e as minha justificativas.

Sou, como pessoa humana, um ser senciente pois sinto prazer e dor, satisfação e angústia, munido de intuição e fé. “Viver é experimentar incertezas, riscos e se expor emocionalmente”. Nem sempre é bom “deixar a vida nos levar”, pois, às vezes, temos de tomar atitudes para correção de rumo.

Retornando ao cenário “virulento”, com a divulgação de fatos tanto pela mídia (pouco) quanto pela internet, tem ocorrido registros relatados como bem -  sucedidos, de procedimentos preventivos com o emprego de algumas drogas, como da ivermectina, em que centenas de pessoas usuárias do medicamento, ou não ficaram doentes ou tiveram sintomas leves. Por que isso não tem sido divulgado como merece? Respondo: porque a sua eficácia não foi comprovada cientificamente, ou seja, testada em ensaios clínicos randomizados e de duplo cego. Isso é verdade sim, mas, também, há outra verdade bem cruel. A guerra está acontecendo e os ensaios levam muito tempo para serem concluídos – muitas pessoas morrem!

Frente a esta situação poucas autoridades têm mostrado coragem e discernimento para indicar ou receitar o medicamento, numa situação óbvia de escolha, de tomada de decisão. Numa situação dessa, quero participar ativamente, sem ficar esperando “o que acontece”. Quero usar do meu direito de escolha, segundo uma análise de custo/benefício, de decidir se tomo ou não a ivermectina.

Esse medicamento é um fármaco pertencente à classe das avermectinas, lactonas macrocíclicas, que apresenta atividade antiparasitária e comprovada atividade antiviral “in vitro”. As avermectinas foram descobertas na década de 1970, produzidas pela bactéria filamentosa, um actinomiceto, da espécie Streptomyces avermitidis. Quero lembrar, com base em meus conhecimentos de microbiologia industrial, inclusive por experiência própria em indústrias e na academia, que o desenvolvimento de um medicamento, seja originário de uma planta ou de um microrganismo ou mesmo de uma síntese química, começa na bancada do laboratório, com os ensaios e testes “in vitro”. Tratando-se de uma molécula “nova”, avalia-se o seu potencial, se possuidora de alguma atividade de interesse: antibiótica, antiviral, anticâncer, etc. Mostrando-se “interessante”, a pesquisa continua: testes de toxicidade, testes em animais; com resultados favoráveis passa-se à fase posterior, de ensaios clínicos, até ser considerado um medicamento, inclusive pelo poder público, da área da Saúde. Todo o processo demanda muito tempo e custa muitos recursos financeiros. Não se pula etapas. É o caso da ivermectina. Já é considerado um medicamento há muitos anos!   

Entre os efeitos adversos, registrados como leves e autolimitados, são citados tontura, vertigens, cefaleia, náuseas, vômitos e fatigas.

Em razão do exposto, pergunto: dá para arriscar? Tomei a primeira dose no final do mês de junho de 2020. Declarei a minha guerra particular!

 

*Gecernir Colen; cidadão, farmacêutico, microbiologista/doutor, membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni e do Instituto  Histórico e Geográfico do Mucuri.


sábado, 4 de julho de 2020

CINE PALÁCIO

Escutei Caetano Veloso dizer, numa entrevista, que havia saído da Bahia aos 18 anos contra a sua vontade. Naquele tempo, decerto, preferiria a vida simples e vagarosa de Santo Amaro. Seria funcionário público, pescador, lutaria para purificar o Subaé; mas o destino o jogou no vórtice do mundo (pra nossa sorte). Quando saí de Teófilo Otoni, na insensatez dos meus 17 anos, eu o fiz de caso pensado. Era um passarinho de voo curto, como um tiziu, que queria virar andorinha e migrar pra outras paragens. As aves migratórias buscam alimento farto e clima mais ameno; eu ansiava pelas sabenças (ainda as persigo até hoje). Curioso é que a comichão de sair não matou o desejo de voltar. Era chegar julho e janeiro e lá estava eu, pisando o solo do Mucuri. Numa dessas idas sazonais, aborreceu-me a notícia da demolição do Cine Palácio.

O primeiro sentimento que me acudiu foi a saudade. Ainda que o tempo imprima em nós certo astigmatismo que nos faz ver o passado sempre tingido de azul, o cinema nos remete aos dias felizes. Grandes amizades, risadas plenas, sobressaltos, namoros (paqueras, como se dizia), beijos e outras ilicitudes sob a escuridão.  As matinês no Palácio tinham cheiro de pipoca e drops multicoloridos. Era um mundo gigantesco, desproporcional ao meu tamanho. Antes do filme, o canal 100 mostrava os clássicos do futebol em close e câmera lenta; e eu, também em câmera lenta, assistia deslumbrado. Olha, vai começar! Antes, os slides comerciais. Farmácia Indiana. Magda Magazin. Ô Bem Bolado. “Começa logo!”, gritava um impaciente. Enfim, as trombetas da 20th Century Fox. Silêncio total. Começava a viagem. Era nosso Cinema Paradiso.

Depois da nostalgia, vem a pergunta: por que demoliram o Cine Palácio? Distante da cidade e dos fatos, é temerário opinar. Mas tenho cá minhas suspeitas. O capital. Quem derrubou o Cine Palácio foi o capital. Qualquer outro elemento será frágil frente ao l'argent. Pelo que me consta, a Praça Tiradentes é tombada, logo, todos os prédios históricos do entorno da Praça devem (ou deveriam) ser igualmente preservados. Bobagem. Os processos legais no Brasil são um convite à transgressão. Primeiro se transgride; depois, se discute. Se negocia. Se posterga. Se esquece. Há dois lados: o empresário e o poder público. Por lei, ambos deveriam zelar pelo patrimônio, mas impera o pragmatismo. O empresário, a não ser que seja um mecenas, não preserva esse patrimônio porque não lhe dá lucro. O poder público não o preserva porque é caro e não dá voto. Implicitamente, ambos pensam: “Às favas com a cultura!”. 

Em verdade, vos digo que há mais um lado nessa história — como na música do Skank que diz que tudo tem três lados —: a população da cidade. Arrisco o palpite de que a maioria das pessoas apoiou a destruição do velho cinema e a construção da moderna e iluminada loja de sapatos. Até o nome é mais chic. Cine Palácio é como jogo de damas: coisa de velho. Teófilo Otoni precisa do novo, do desenvolvimento, do emprego! Falou-se em geração de 100 novos empregos (mais uma vez, me lembrei do canal 100). E outra: quem quiser assistir a filmes tem o Netflix, no conforto da sua casa. Que venha o progresso! Penso que cinema, literatura, pintura e história encontram cada vez menos adeptos. O país foi se emburrecendo, tornando-se mais cada vez mais fisiológico, duro, pragmático. Cultura foi virando mimimi. O Cine Palácio não resistiria mesmo a essa tríade adversa.  

Perdoe-me, leitor progressista, mas a nostalgia me assalta novamente. Teimo em pensar que a história poderia ter sido diferente. Um bem costurado acordo público-privado teria salvo o nosso gigante. Sonhei com o Palácio restaurado, excelso e imponente, iluminando a praça. Na próxima viagem, me apanharia sentado frouxamente, numa daquelas olorosas poltronas, assistindo a um show de Paulinho Pedra Azul ou rindo com Saulo Laranjeira. Forçando um pouco mais, estaria no jardim, sentado à mesa, bebendo cerveja com os velhos amigos e ouvindo chorinho ou MPB. Se oriente, rapaz (salve Gil, 7.8), volte pro mundo real. O velho Palácio se foi pra sempre. Como souvenir nostálgico, resta-me a poltrona de imbuia que comprei na última vez que estive em Teófilo Otoni. Incrível como ainda preserva o mesmo cheiro. De vez em quando, afundo o corpo nela, fecho os olhos e viajo para os tempos do meu Cinema Paradiso.          

 Goiânia, junho de 2020

 Luciano Alberto de Castro

Cronista e professor da Universidade Federal de Goiás


Fonte: Publicado em 01 de julho de 2020 no Jornal Tribuna Diáro no link: https://diariotribuna.com.br/?p=978


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Padre Piero Tibaldi: 60 anos de vida sacerdotal (1960-2020)


O Padre Piero Tibaldi está completando 60 anos de vida sacerdotal com empenho e alegria. Destes, um total de 50 anos foram integralmente dedicados à Diocese de Teófilo Otoni.

Natural da cidade de Alba (Itália), ordenou-se sacerdote em 12 de junho de 1960. Formou-se em Filosofia pelo Liceo Clássico Govane/Alba e graduado em Teologia pelo Istituo di Teologia do Seminário de Alba.

Ainda na Itália, foi vice-reitor e reitor no Colégio Cívico de Alba e professor do seminário, bem como vigário cooperador na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na cidade de Canale.

Chegou ao Brasil e à Diocese de Teófilo Otoni no dia 24 de janeiro de 1970, como missionário “Fidei Donum”. De início assumiu como Pároco da Catedral Diocesana Imaculada Conceição, de 1970 a 1884. Em seguida, como vigário da Paróquia São Francisco, até 2002, quando por determinação do então Bispo Dom Diogo, deixou a paróquia e ficou sem atuação oficial na diocese. Na Paróquia São Francisco, atendia e dedicava às comunidades dos bairros Palmeiras, Frei Dimas, Gangorrinha, Jardim das Acácias, São Diogo e as comunidades rurais, inclusive ajudou a construir cinco centros comunitários, dos quais quatro deles em atividades até os dias atuais.

Foi também Regente do tradicional e reconhecido Coral Paulo VI, Administrador Diocesano dos anos de 1994 a 1996, e vigário da Paróquia São João Batista em Ouro Verde de Minas de 2011 a 2014.



Desde 2014 é Coordenador das Pastorais Sociais diocesanas. As pessoas identificam no Padre Piero, que, o seu trabalho não se restringe somente a ações piedosas. O seu foco é, principalmente, o desenvolvimento integral das pessoas, ou seja, a participação das pessoas na sociedade como um todo.

É também membro honorário da Academia de Letras de Teófilo Otoni - MG, sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico do Mucuri e cidadão honorário do município de Teófilo Otoni - MG.

Atualmente é Vigário Paroquial da Catedral de Imaculada Conceição e Membro do Colégio de Consultores da Diocese de Teófilo Otoni - MG.

Antonio Jorge de Lima Gomes
Professor UFVJM - Campus do Mucuri - Teófilo Otoni

sexta-feira, 5 de junho de 2020

O choro da Cabaça


Certa vez eu estava no cabeleireiro e, enquanto meu cabelo era cortado,  ouvi a conversa de  um homem dando uma receita de um medicamento natural, a  uma  pessoa que ali estava. Não me recordo para que servia aquele medicamento,  mas me chamou atenção a sua explicação sobre  o que acontecia enquanto se produzia o remédio. Ele  dizia que era uma substância vinda  das lágrimas da cabaça e explicava como fazer. Deveria se cortar uma cabaça verde,  ao meio, formando  uma espécie de duas cuias e em seguida  levar  uma das partes ao forno,  ou colocá-la em cima de brasas.  Ele  dizia que enquanto o fogo aquece,  a cabaça começa a chorar e então se deve recolher  aquelas  lágrimas,   pois elas são um excelente medicamento. Pena que não me recordo quais doenças o medicamento curava. Mas, me chamou a atenção o jeito poético  do homem referindo-se ao  choro silencioso produzindo as lágrimas da cabaça,  a qual ao ser colocada no fogo sentia  dor e começava a lacrimejar. Suas lágrimas se tornavam o remédio vindo do sofrimento.
Pensei no choro de tantas árvores violentadas na natureza que derramam lágrimas e nem sempre essas são notadas. O instrumento cortante impiedosamente é acionado arrancando pedaços da “carne” das árvores. Suas “veias” são partidas e a vida se esvai.
Pensei nas lágrimas, chamadas orvalho, que na madrugada são derramadas sobre a relva. Talvez seja o choro da natureza pelos sofrimentos vividos durante o dia. Parece que à noite a dor dói mais e os gritos sofridos  se perdem na escuridão. Nos hospitais, à noite, se ouvem mais  gemidos de dor do que durante o dia.
Pensei nos inúmeros cortes existenciais na vida de todas as pessoas que faz lágrimas brotarem e   essas são como remédios que escorrem pelo rosto trazendo alívio para dor.  O choro se torna uma espécie de bálsamo natural em cada ser vivo.
O choro faz parte da vida. Normalmente nascemos chorando, mas nem sempre morremos chorando. Existem relatos de pessoas que morreram sorrindo. Muitas vezes  o choro é solitário, mas o choro chorado junto de uma outra pessoa tem uma força maior. É sempre bom quando encontramos a solidariedade de alguém que chora conosco. Lembro-me quando meu pai faleceu.  Eu acompanhei a sua agonia e sua morte, no hospital. Fui eu quem deu a notícia aos  meus irmãos e tomei as primeiras providências para o seu sepultamento. Depois que se iniciou velório eu ali permanecia ao lado do seu corpo,  mas até então nenhuma lágrima tinha vindo.  Eu estava meio anestesiado, vivendo o espanto da morte. Um pouco mais tarde chegou um sacerdote amigo, o qual esteve ali por um tempo, e quando ele foi se despedir  eu quis lhe agradecer  a  presença e naquela hora minha voz embargou e um choro estava começando, mas ele saiu imediatamente. Ele   não quis parar para ver e sentir o meu choro. Como me fez falta aquela parada de um irmão amigo, para me ver chorar. Eu era como uma cabaça partida colocada sobre a brasa e minhas lágrimas estavam começando a escorrer, devido a minha dor interior. Aquela era uma hora em que eu precisava chorar e seria muito bom que alguém chorasse comigo, ou pelo menos sentisse as minhas lágrimas. É preciso aprender a chorar junto. São muitas pessoas carentes de choro. Nós Bispos temos muitos motivos para chorar, mas parece que temos vergonha e precisamos demonstrar  firmeza e viver como se não tivéssemos sentimentos. Isso nos faz mal.
 A natureza tem suas alegrias e seus lamentos. Quando uma dor grande toma conta de uma pessoa, parece que a natureza sofre junto. É como na paixão de Jesus: “Houve treva em toda terra” (Mt 27,45). Há uma integração dos elementos da natureza. “Tudo está interligado”.
Quantas vezes não queremos, mas temos que chorar juntos devido a nossa missão. Lembremos o exemplo da cebola. Ela chora quando é cortada e normalmente choramos juntos com ela,  mas nem por isso deixamos de cortá-la. Existem aquelas situações difíceis em que temos que fazer um corte,  sabemos que a pessoa está sofrendo, até  choramos juntos, mas o corte é necessário. Temos que fazê-lo. São especialmente aquelas vezes em que temos que dizer não, quando gostaríamos de dizer sim.
Fico pensando como aquele naturalista, que ensinava o medicamento com as lágrimas da cabaça, despertou-me a atenção para tantos outros ensinamentos e remédios que ele nem se quer imaginava que estava ajudando a descobrir. Aprendi que o  choro da cabaça é medicinal.
O choro de Jesus foi medicinal para Marta e Maria sufocadas  com a morte de Lázaro. Não foi um choro de desespero, mas de solidariedade que iluminou a realidade com o dom da fé. “Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá. Crês nisso?” Disse ela: “Sim Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vem ao mundo” (Jo 11, 24-27).
Neste tempo da Pandemia do Coronavírus muitas pessoas estão precisando de um ombro amigo para apoiar e poder compartilhar suas lágrimas. Uma tristeza está encobrindo a terra. A solidariedade pode trazer alívio e esperança neste momento de dor. Como a parte da cabaça colocada sobre as brasas assim se encontra a humanidade. Deus nos dá o dom de chorar juntos, nos consolar e nos curar com as lágrimas. Nossa esperança é que as lágrimas da dor se transformem em lágrimas da alegria. Também o choro da alegria quando chorado junto ganha mais vida. Neste tempo de Pandemia tenhamos a certeza que Deus está chorando conosco e “Ele é a luz que está não no fim, mas no meio do túnel” (Carlos Mesters).  Deus não entra em desespero, mas nos ajuda a transformar nosso desespero em esperança. Tudo vai passar e a vitória vai chegar. Para alcançar a vitória se faz necessário dizer alguns nãos. É necessário fazer cortes que geram dor, fazer renúncias que distanciam, mas  tudo seja feito para o bem, não apenas nosso, mas de todos. Já podemos sentir os sinais do amanhã. As crianças vêm ao mundo no meio da dor da mãe parturiente, mas sempre trazem alegria. Deus nos prepara para muitas alegrias.

Dom Messias dos Reis Silveira
Bispo de Teófilo Otoni

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Lançada a revista International Journal of Geoscience, Engineering and Technology em Teófilo Otoni

No dia 30 de abril de 2020 foi lançada a primeira edição da revista International Journal of Geoscience, Engineering and Technology e poderá ser acessada em www.geovales.com.

O Professor Dr. Antônio Jorge de Lima Gomes membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni e do Instituto Histórico e Geográfico do Mucuri é o Editorial Manager, e tem como Publishing Editor o Prof. Dr. Jorge Luiz dos Santos Gomes membro do Instituto Histórico e Geográfico do Mucuri. Ambos professores da UFVJM, Campus do Mucuri em Teófilo Otoni.

A revista possui ISSN 2675-2883 e está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Ambiente e Sociedade da UFVJM. Foi criada a partir do grupo de pesquisas GEOVALES, este criado em 2014, Campus do Mucuri, Teófilo Otoni. Trata-se de periódico interdisciplinar online com publicação semestral (abril e outubro) e aceita artigos em inglês, português ou espanhol. Recebemos manuscritos de fluxo contínuo.

Capa da primeira edição da revista.

A revista abrange as seguintes áreas: Geologia, Geofísica, Geografia, Geotecnia, Riscos Geológicos e Ambientais, Engenharia, Mecânica dos Rochas e do Solo, Estruturas, Geocronologia das Rochas e Minerais, Materiais Ecológicos, Concreto Alternativo, Saneamento, Planejamento Urbano, Energia Alternativa, Química, Métodos Quantitativos, Mudanças Climáticas, Políticas Públicas, Políticas Econômicas, Ciências Agrárias, Política Florestal, Geoprocessamento, Geomorfologia, Geodésia, Topografia, Petrologia e Mineralogia, Águas Subterrâneas e Recursos Hídricos.

O periódico conta com revisores internacionais, traz 15 artigos na primeira edição, e foi criada a partir do grupo de pesquisas GEOVALES, do Campus do Mucuri, em Teófilo Otoni. A revista pode ser acessada em www.geovales.com.



Chamada para segunda edição

Já estão abertas as inscrições para submissão de artigos para a segunda edição da International Journal of Geoscience, Engineering and Technology. O prazo de envio é até o dia 30 de setembro para a edição de outubro. Todas as informações sobre a revista, incluindo modelo próprio para facilitar a elaboração do artigo, estão disponíveis no site www.geovales.com.



Mais informações sobre a revista e submissões podem ser obtidas pelo e-mail: geovales@geovales.com.


Antonio Jorge de Lima Gomes
Professor UFVJM - Campus do Mucuri - Teófilo Otoni


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Como estão os pobres?


A Campanha da Fraternidade realizada durante o período da Quaresma, deste ano de 2020, nos pediu um olhar de compaixão: “Viu sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). Quando foi pensada esta Campanha, não se imaginava que a mesma não pudesse ser concluída conforme programado. Ainda no decurso da Quaresma, o mundo inteiro sentiu  uma dor profunda e levou um susto imenso. O medo generalizado tomou conta da sociedade, pois um inimigo invisível entrou nas casas, viajou pelas ruas, praças e muitas portas foram fechadas inclusive as das igrejas.  As pessoas sentiram-se ameaçadas, independentemente da  condição social, cultural, religiosas e econômica. O Coronavírus  chegou de uma forma invisível, mas fazendo estragos profundos na vida humana.

Ao chegar o término do ano de 2019 todos estavam dizendo feliz ano novo. Sim falamos isso para muitas pessoas. Era uma esperança que  2020 traria felicidades. Mas onde está felicidade? Nossos sonhos fracassaram? Não podemos perder a esperança. Estamos ameaçados por um inimigo invisível, mas há um Deus que nos conforta. “Há uma luz, não no fim do túnel, mas no meio dele” (Fr. Carlos Mesters). Essa luz é Jesus.

Neste tempo de inseguranças têm surgido muitos gestos de solidariedade. Eles não precisam ser grandes, basta serem feitos com amor. Muita gente está fazendo máscaras para doar aos pobres. As paróquias estão fazendo campanhas de alimentos e vestes para socorrer as pessoas que estão precisando. Os gestos de solidariedade estão se multiplicando. O povo brasileiro sabe por mais água no feijão e assim o pão se multiplica. Com o nosso amor muita gente pode ser amparada. O Papa Francisco, no dia 9  de maio telefonou para o Cardeal de São Paulo,  Dom Odilo Scherer, se solidarizou com os sofredores e perguntou:  “Como estão os pobres”?

Vamos olhar para além de nossas casas e perguntar como estão pobres? Existe muita gente boa que se compadece  e quer  cuidar dos outros. A Igreja como mãe cuidadosa dos seus filhos e filhas se preocupa com os pobres e quer ajudá-los, especialmente nesse momento de fragilidade. Não podemos ficar indiferentes à dor e à vulnerabilidade humana. Vamos repartir, confortar e curar. Muitas vezes aqueles recursos disponibilizados pelas grandes empresas não chegam imediatamente até os pobres, não lhes traz alívio. Com a força do Espírito Santo agindo em nós, na  sensibilidade cristã  e com a organização das comunidades  muita gente poderá ser socorrida. Vamos  perguntar como estão os pobres da nossa rua, de  nossa comunidade  e de nossa paróquia. Vamos descobrir como eles estão e uma vez conhecendo a dor deles, não podemos ficar insensíveis à situação que clama ajuda. Quem fica invisível é o vírus que causa mal. A comunidade cristã precisa ter uma presença visível e samaritana, na sociedade.

Neste tempo de pandemia com tantos anúncios de saturação dos sistemas de saúde,  de mortes e sepultamentos em valas comuns, corre-se o risco de ficar insensível a tanto sofrimento. Não podemos ser assim indiferentes. O olhar de indiferença mata. Vamos ser solidários. Podemos rezar, podemos oferecer amor  aos que necessitam, podemos estender as mãos oferecendo um pouco do que somos e temos. Ajudar é preciso. A ajuda solidária traz alegria ao coração do necessitado. Deus não cessa de nos ajudar, por isso somos felizes. Não podemos ficar insensíveis. Vamos socorrer quem está no caminho sem forças para seguir.
Dom Messias dos Reis Silveira

Dom Messias dos Reis Silveira
Bispo Diocesano de Teófilo Otoni - MG

Vídeo do Lançamento da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Mucuri - Volume 4

  Olá. O lançamento do Volume 4, da revista do Instituto Histórico e Geográfico do Mucuri, ocorreu no dia 21 de abril de 2021 de forma onlin...