domingo, 3 de janeiro de 2021

A amendoeira de Copacabana

O ofício de cronista exige que prestemos atenção à natureza (mesmo que ela não preste atenção em nós). Isso escreveu Drummond nos anos 50, mas o poeta foi além da observação e, saborosamente, conversou com uma velha amendoeira à frente da sua janela. Superpoderes de poeta. Acredito que o espírito extrovertido da árvore — próprio dos cariocas — tenha contribuído para a fluidez do colóquio. Provecta e espirituosa, a amendoeira explicou que começava a outonear, mas que o tempo andava desorganizado e, com isso, ela ainda trazia um resto de verão, uma antecipação de primavera e uma suspeita de inverno. Ao final, filosofou: outoniza-se com dignidade, meu velho.

Se a vizinha de Drummond sentia o mundo desorganizado nos distantes anos 50, imagino o que ela diria dos tempos atuais. Em março, o planeta saiu dos eixos e depois começou a girar ao contrário. Alguns se acostumaram, outros ainda não. Veraneamos assustados. Outoneamos acuados. Inverneamos ressabiados. Há pouco, começamos a primaverar, meio sem jeito, dançando fora do compasso. Insistimos em ser primaveris autênticos e o máximo que conseguimos é um arremedo de normalidade.

Se tivesse os poderes de Drummond, também gostaria de conversar com a natureza. Eu até tento, mas ela não responde (pelo menos não em uma linguagem inteligível). Outro dia, comentei com a minha jovem pitangueira: Que calor é esse? Ela quedou-se muda e estoica. E era mesmo um calor “de derreter os untos” como diria o Otto Lara Resende. Mantive a contemplação. O jasmim estava vistoso e cheio de florezinhas brancas. Um casal de bem-te-vis fazia piruetas no céu. O poeta tinha razão: a natureza não prestava atenção em nós. Mais do que isso, ela não precisava de nós. Ela era mais competente do que nós para lidar com o mal que nós nos causávamos.

Mas eis que a chuva caiu sobre a terra. Os pingos gordos e afoitos encharcaram as almas desérticas que definhavam, letargicamente, como frutas desidratadas. Escrevi letargicamente e o corretor sugeriu: liturgicamente. Sugestão aceita, meu chapa. Assim, liturgicamente, a chuva poderia ser uma ablução. Um rito de purificação para os pecadores. Será que merecemos a indulgência? Os fiéis acreditam que sim, que sempre haverá chuva. Os racionais dirão que não, que o Universo pode se cansar das nossas transgressões.       

Aprenderemos nós com essa desorganização do mundo, essa noção de tempo perdido, essas estações enviesadas, esse calor que derrete os untos, os ossos e os nervos?  Tomara que sim. O ciclo das estações está se fechando e vem chegando o verão novamente. Precisamos, como a amendoeira de Copacabana, guardar um pouquinho de cada estação para que, no próximo ciclo, comecemos a outonear com dignidade.

Crônica de Luciano de Alberto Castro

Fonte https://www.revistabula.com/37366-a-amendoeira-de-copacabana/ em 03/01/2021

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A esperança

 O ano de 2020 vai se encerrando. Um ano difícil, extenuante. Perdas de pessoas queridas, dificuldades diversas, angústia, medo. Não seria exagero se tomássemos tais elementos como destaques para nossa retrospectiva. No entanto, é com outra chave que gostaria de encerrar o ano nesta coluna. Pretendo falar de esperança. Mas quero fugir do lugar comum dos votos de felicidade, das frases de cartão, dos belos pensamentos que invadirão em breve nossas caixas de mensagens.

O final do ano é tempo propício para projeções. Traçamos planos, fazemos uma lista de coisas para o ano seguinte, prometemos mudanças. Está perfeito. O desafio é saber em que medida tais projetos se configuram como buscas reais ou meras fantasias. Além disso, há outro elemento mais decisivo em nosso tempo: o que esperar de um ano sobre o qual não conseguimos sequer ter ideia de como será?

Vou recuar um pouco. Por que temos esperança? Por que gastamos tanta energia com um futuro imaginado? Difícil dizer. Todos os seres transitam de um estado a outro, mudam com o tempo. Não há estagnação na natureza. Mas o bicho humano quer mais. Celso Viáfora sintetizou belamente isso em sua canção “Água do mar”: “Eu não quero pouco: / só quero tudo, / pelo tempo todo,/ pra todo mundo”. A esse anseio profundo Adélia Prado chamou de “fome”. Um sentimento dúbio, porque ao mesmo tempo que queremos saciá-la, de alguma forma desejamos que ela volte, para novamente buscar o alimento. Seus versos são certeiros: “Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.”. Nós desejamos o desejo...

O filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677) dedicou-se ao tema dos afetos de forma rigorosa e demorada. Pontuo aqui apenas um ou outro elemento. De acordo com Spinoza, somos essencialmente desejo. Esse “desejo”, porém, não é o mero anseio por algo ou alguém, mas sim um impulso constitutivo de nosso ser para sua conservação ou crescimento. Como não somos isolados da natureza, e sim parte dela, seguimos sua ordem geral: um esforço permanente de preservação, para aumentar nossa potência de agir e de ser. Para encurtar o caminho: quando esse impulso é atendido, tornamo-nos mais alegres, mais potentes; quando não, é a tristeza que nos toma.

Isso tudo para dizer que a esperança é uma forma de alegria, só que antecipada na imaginação. É um desejo de alegria que está por vir. Por isso é frágil. O aumento de nossa potência de agir ainda não aconteceu, ele está projetado no futuro. Nesse sentido, se for reduzida à mera espera passiva, a um estado de expectativa pura e simples, a esperança se transforma em lenitivo, em alívio apaziguador do presente por meio de uma projeção imaginária. Ficamos parados à espera de um milagre. Porém, se transformada em postura ativa a esperança nos potencializa, nos motiva a abrir caminhos. Colocamo-nos em movimento. Para dar um exemplo pessoal numa lembrança que me vem, foi o que, intuitivamente, acabei fazendo no dia em que, com onze anos, disse à minha mãe, na volta da escolinha rural, que queria continuar os estudos, ir para a cidade, conhecer o mundo.

Mas é preciso cautela. Eu poderia facilmente incorrer numa narrativa falsa da história para dar um tom solene: “Naquele momento tracei um novo rumo para a família! ”. Não é verdade. Por dois motivos básicos: primeiro, não temos o poder de causar as coisas apenas por antecipá-las na mente. Participamos de processos, engajamo-nos em algo, dedicamo-nos a um objetivo. Portanto, são ações – e não a mera vontade – que fazem com que as coisas aconteçam ou não. O segundo motivo está intimamente ligado ao primeiro: não estamos isolados. Ao chegar no mundo o encontramos permeado de encontros e desencontros e, como quem sobe em um ônibus no centro da cidade, passamos a compor aquele complexo de relações. De tal maneira que uma decisão – por exemplo, a de uma criança que decide continuar seus estudos – não nasce do nada; é fruto de motivações que ela sequer imagina e que, na sequência, será incluída em uma trama altamente complexa de outras expectativas dos pais, família, vizinhos, a sociedade toda. Sem falar nas questões materiais, nas implicações concretas de uma determinada decisão, dinheiro, emprego etc.

O que quero com esse raciocínio tão complicado? Certamente não é cansar o leitor, mas sim lembrá-lo de que: 1) por mais belos que sejam seus anseios, somente o fato de projetá-los na mente não indica que se realizarão; 2) na tentativa de realizar seus objetivos para o próximo ano, precisará considerar a trama de relações, situações, circunstâncias e fatores diversos que não dependem de você.

Mas então não há sentido em ter esperança? Não diria isso. Diria, recordando uma vez mais Spinoza, que ela é um sentimento frágil, pois a incerteza também comparece no jogo. Onde há esperança há também o medo. Esperança é desejo de realizar, conquistar algo, ser alguma coisa. O medo é o seu reverso, pois não é certo que realizaremos, conquistaremos ou seremos o que planejamos.

Uma posição mais sábia, portanto, seria aquela que reveste a esperança de uma profunda reflexão crítica. Primeiramente, buscar entender o que desejamos e porque desejamos. Ter a consciência das motivações de nossa esperança. Concomitantemente, avaliar as reais condições de cumprimento daquilo para o qual nossa esperança aponta. É preciso pensar o que é necessário de esforço meu, em que medida depende não só de mim, mas de outros; de que forma é viável ou não; e, o mais importante de tudo, se é mesmo um bem aquilo que anseio. Numa palavra, conhecer melhor minhas próprias ações e também a trama em que estou inserido, que é sempre mais complexa do que eu consigo compreender.

Tudo isso não garante em nada uma maior eficiência no cumprimento de nossos sonhos. Só haveria receita de sucesso se o mundo respondesse ao nosso apelo ou se vivêssemos isolados. Posto que não é assim, a única vantagem em revestir nossa esperança de reflexão crítica é que, seja qual for o resultado, teremos avançado um pouco mais na capacidade de orientar nossas ações e sentimentos, conhecer melhor quem somos, deixando de esperar, passivamente, que o mundo e a vida nos sejam favoráveis.

Não há mal algum nas frases feitas de virada de ano, nos desejos de coisas boas para quem está ao nosso lado. Porém, é tudo ainda expressão do lado frágil da esperança. Voltando à questão: o que esperar do próximo ano? Claro que devemos querer o melhor, mas o decisivo mesmo se dá aqui e agora. Que venha 2021. Antes dele, porém, temos ainda um pedaço de 2020 para viver. Façamos dele o melhor possível.

 

José Carlos Freire

Professor na UFVJM, Campus de Teófilo Otoni

Fonte: Publicado em 18 de dezembro de 2020 no Jornal Diário Tribuna no link: https://diariotribuna.com.br/?p=6718

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A felicidade - II

Na crônica anterior propus uma reflexão sobre três modelos de felicidade. Gostaria de falar de outros três, lançando mão do mesmo esquema de divisão histórica – o mundo antigo, o medieval e o moderno. Desta vez, porém, farei o caminho inverso: partirei de nossos tempos, seguindo até a antiguidade.

Primeiramente, um modelo de múltiplas faces ao qual podemos chamar de ideal de vida comunitária alternativa. Desenvolveu-se, sobretudo, nos últimos sessenta anos. Há uma variedade enorme de manifestações que caberiam nesse referencial, desde os movimentos de contracultura nos anos 1970, passando pelas comunidades de cunho esotérico, até as atuais expressões mais elaboradas como as agrovilas e ecovilas, muitas vezes oriundas de movimentos sociais.

O que seria comum a essas modalidades? Independentemente do número de pessoas, famílias ou grupos que as compõem, as comunidades carregam essa marca essencial: são alternativas. A quê?  Sobretudo ao modo de vida capitalista, com sua lógica industrial, de competição a qualquer custo e de destruição do meio ambiente. Dessa resistência decorrem aspectos práticos como a produção coletiva, o consumo de alimentos orgânicos, a educação das crianças a partir de outros referenciais etc. Tentativas de forjar uma vida saudável e solidária, mesmo dentro de uma ordem social mais ampla que aponta para outra direção.

Quem se aproxima de tais comunidades ou simplesmente ouve falar sobre elas costuma ter uma reação mais ou menos esperada: são utópicas! Estou de acordo. A vida alternativa é um desafio gigantesco. Mas convidaria o leitor a, pelo menos, reconsiderar sua visão sobre essas iniciativas. Elas nos dizem algo muito sério: será que o modo de vida “normal”, a que a maioria se ajusta, de fato funciona? Para onde rumamos com os preceitos que regem nossa vida social? Talvez seja o caso de ouvir com mais atenção a provocação que nos vem da música “Balada do Louco”, de Arnaldo Baptista e Rita Lee: “Dizem que sou louco por pensar assim./ Se eu sou muito louco por eu ser feliz,/ mais louco é quem me diz e não é feliz”.

Regredindo no tempo, poderíamos nos deter em diversas manifestações ao longo da chamada Idade Média que, de algum modo, destoaram da oficialidade cristã. Enquanto esta se orientava pelo medo do pecado e pela ideia de purificação da alma, já que a felicidade somente se encontraria numa vida futura, muitos grupos se configuraram de outros modos. É o caso dos mendicantes, cujas expressões mais conhecidas são os seguidores de Domingos Gusmão e Francisco de Assis – para os católicos, “São Domingos” e “São Francisco”.

Tais grupos não estavam isentos de contradições e nem da marca institucional romana que era dominante. Mas havia algo mais interessante. É o caso de Francisco de Assis que recomendava práticas como o desapego de riquezas e honrarias; o cultivo da fraternidade; a contemplação da natureza como co-irmã do humano; e aquilo que, sem dúvida, era o mais profético: num tempo de pessoas sisudas e pregações ameaçadoras, Francisco falava da alegria de viver. É curioso que hoje, oito séculos depois, os valores defendidos por ele se mostrem ainda relevantes. Mais que o patrono da ecologia, Francisco de Assis é uma espécie de arquétipo do sábio, similar a outros místicos do ocidente e do oriente.

Por fim, recuando ainda mais, temos as escolas de vida que floresceram na Grécia antiga e posteriormente por toda a Roma. São chamados de “escolas” menos pelo conteúdo e mais pela forma de vida que procuram ensinar. Destaco uma entre elas que me parece muito atual: os epicuristas. O Jardim de Epicuro era o espaço educativo em que o filósofo divulgava ideias como o cultivo das coisas simples, a valorização da amizade, a consideração do sofrimento e da dor como inerentes à vida. Para ele todos deveriam se dedicar à filosofia, porque ninguém é demasiado jovem ou velho para buscar a saúde do espírito. Aí está um preceito valioso: o caráter terapêutico do conhecimento. Não essa ladainha que nos é imposta o tempo todo de aprender mais para competir melhor. Não. Para Epicuro, buscar o conhecimento é almejar a sabedoria, o que implica em um movimento duplo: admirar-se com as coisas simples e belas e, simultaneamente, desassombrar-se do medo do futuro. Além disso, o cultivo da sabedoria é uma maneira de superar ou suportar a hipocrisia das convenções sociais. Em síntese: uma maior tranquilidade da alma; hoje diríamos, quem sabe, um maior equilíbrio interior.

Para o epicurismo a vida pode se tornar prazerosa. Não por ser um mar de rosas e perfeita. Ela continua difícil e complicada, mas nossa postura diante dela se modifica: passamos a experimentar os momentos bons com mais profundidade e os momentos difíceis com maior serenidade. Assim, nosso ânimo fica predisposto a aproveitar os períodos de prosperidade, alegria e saúde; da mesma maneira como nos preparamos, sem ansiedade, para as fases de dificuldade, tristeza e doença. Isso tudo cercado de boas amizades e meditação.

São três referenciais de busca da felicidade. Nenhum deles, certamente, capaz de nos dar todas as respostas. Mas pelo menos nos oferecem caminhos. O leitor certamente terá encontrado pontos de contato entre as comunidades contemporâneas, as medievais e as antigas. Talvez pelo fato de que, apesar da força do modo de vida que impera em uma época, habita em nós um anseio por autenticidade, por profundidade. Talvez haja, nas brechas do cotidiano e nas “falhas do sistema”, trilhas possíveis de uma existência alternativa.

 

José Carlos Freire

Professor na UFVJM, campus de Teófilo Otoni

Fonte: Publicado em 16 de outubro de 2020 no Jornal Tribuna Diário no link: https://diariotribuna.com.br/?p=5053  

 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Pura Fachada

Fachada: o lado situado no exterior. O que é visto de forma primeira. O escancarado.

E é bem verdade que, embora nem sempre haja sintonia entre o que há de fora e o de dentro, por aqui isso é quase um postulado. A concordância é nenhuma, ou quase.

O ceticismo exposto esconde a utopia do amor. A boca que alardeia tendência poligâmica na verdade quer viver pra sempre no mesmo colo.   O cérebro que muitas vezes calcula o tamanho do passo queria mesmo era pular. Às vezes mergulhar de cabeça. Inconsequência. Anda, calcula, mais por medo do que por convicção. Raramente convicção.

O coração grita, exige atenção e, embora a receba de madrugada, na luz não tem a mesma sorte. É calado a cada volta do ponteiro. Que vergonha, oras, diz ele pra si mesmo.

Isso não existe, diz ele, querendo acreditar. Nega, balança a cabeça. O coração cobra na madrugada, mas já é tarde demais.

Acostumado a afirmar fatos e certezas, discorre sobre sua opinião como um jornal expõe um fato, mas omite suas inseguranças. Na verdade, não sente nenhuma certeza.

Às vezes deixa passar, sem querer, a voz do coração que só surgia no escuro, mas logo retifica, alegando engano. Pergunta-se: até quando vai durar todo esse peito de aço, mas esquece e segue. Na verdade, não esqueceu.

Que linda essa fachada! Vale a pena?

 

Luciano Leite de Castro

Goiânia, 18/11/2020.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

A transitoriedade

“Um dia sobre nós também / vai cair o esquecimento / como a chuva no telhado...”. É assim que Paulo Leminski, impiedosamente, define uma dimensão de nossa vida. Sempre foi fecundo o diálogo entre filosofia e literatura. Por vezes os textos literários chegam mais rápido, e sem desvios, a verdades que o filósofo demora a alcançar. No caso do Brasil, país em que as Universidades e um esboço de sistema de ensino somente se constituíram no século XX, é muito comum encontrarmos na literatura elaborações sobre o sentido da vida, a razão de ser das coisas e outras inquietações que são próprias da filosofia.

Seremos esquecidos. Sim, caro leitor. Você, eu, todos nós. Se estivéssemos para fechar um ano menos emblemático que o atual, poderíamos falar de outras coisas. Mas a dureza do nosso tempo exige que tratemos de aspectos nem sempre tão agradáveis, o que não é a primeira vez que ocorre nesta modesta coluna. A doença, a finitude, a morte. Tudo isso tem tomado nossas preocupações de forma muito intensa e eu diria que, apesar do desconforto de pensar nisso, é saudável que o façamos. Pelo menos de forma equilibrada.

O belíssimo filme de animação “Coco” (2017) tem como tema o par morte-memória. No Brasil ganhou o nome “Viva:  A vida é uma festa”. Se você não o assistiu, recomendo muito. É uma linda história que tem como referência a tradicional celebração do Dia dos Mortos no México, comemorado no dia 2 de novembro, assim como nosso Dia de Finados. Porém, diferentemente da tradição católica, na qual se enfatiza a dor da saudade, com a visita aos cemitérios marcada invariavelmente pela comoção, o “Día de los Muertos” é festejado com comida, música e outros elementos que lembrem os falecidos. Assim, as crianças desde cedo aprendem não só a valorizar o passado, mas também o fato de que um dia morrerão. Não cultivam a tristeza, mas a beleza de viver.

Por quanto tempo existiremos? A mensagem do filme é cristalina: o quanto durar nossa existência biológica e, depois da morte, os anos ou décadas nos quais alguém se recordar de nós. E depois? Cairá sobre nós o esquecimento. É certo que a régua de Leminski não vai se aplicar a ele, nem a tantos artistas e figuras que marcaram a história de uma região, de um país ou universalmente. Eles durarão mais. Quanto a nós, pobres mortais, grande massa de bilhões de pessoas que não deixarão grandes feitos, nem estátuas, nem obras artísticas relevantes, será bem diferente. Nossa duração pós-morte será garantida apenas pelos que de nós se lembrarem. E quando o último desses morrer será a derradeira gota de chuva no telhado...

Não vejo problema nisso. Aliás, reconhecer o jogo da vida é uma atitude que nos faz mais livres, mais cientes do que de fato somos. Pó de estrelas. A dificuldade está em ajustar desejo e possibilidade. Gostaríamos de ser eternos. A noção de eternidade é bonita. Entre outras fontes, chegou-nos pela herança judaico-cristã. Pode-se dizer que ela consiste no entendimento de que o universo, que é passageiro, está assentado sobre bases que não passam. É uma ideia tranquilizadora, uma vez que a vida biológica de cada um de nós seria apenas uma cena de um filme maior. Nesse caso, um filme que não tem fim.

Será assim? Não cabe à filosofia normatizar a crença de ninguém. Ela trata da vida concreta e suas nuanças, não do sobrenatural. Mas é seu papel fazer a crítica das ideias religiosas, sobretudo quando estas se mostram incompatíveis com princípios humanitários fundamentais. O que sugiro aqui é algo bem menos ambicioso: o problema de se internalizar o eterno no transitório. Explico-me. Por estarmos habituados à noção de eternidade, é comum que a projetemos naquilo é passageiro. É assim que formamos ideias simples, mas muito eficientes como a “vocação profissional”, o “lugar em que viverei até o fim”, a “pessoa da minha vida”. Sem falar no “felizes para sempre” dos contos, filmes e novelas. Como se houvesse a garantia de que algo jamais acabará. Ocorre que esta expectativa não bate com a realidade. Em nossa jornada vamos experimentando inúmeros fechamentos de ciclo, um após outro; o que ontem parecia eterno hoje é página virada. É o ofício do tempo.

No campo específico das relações afetivas, que são ora nosso abrigo em meio à tempestade, ora a própria tempestade, a vivência da transitoriedade é um imenso desafio. Novamente é a literatura que capta isso de forma brilhante. O poema “Soneto da fidelidade” de Vinícius de Moraes é muito usado no início dos relacionamentos como promessa de amor. E ele é. Mas deveria ser tomado também em sua dimensão menos simpática: se os primeiros versos são sincera expressão de um sentimento que se pretende infinito, os últimos demonstram a consciência de que tudo que está sob o sol é passageiro, “posto que é chama”. Não há nada que lembre eternidade na expressão “...que seja infinito enquanto dure”. Há, sim o desejo de estar com aquela pessoa “em cada vão momento”, o tempo que for possível.

Não conheço muito dos ritos religiosos de casamento. O que sei é que no catolicismo há o momento em que o casal faz as juras de amor. Eis aí uma boa proposta a ser encaminhada ao Papa para se atualizar o rito do casamento: que ele tenha como referência o poema do Vinícius.


José Carlos Freire

Professor na UFVJM, Campus Mucuri, Teófilo Otoni

Fonte: Publicado em 12 de novembro de 2020 no Jornal Diário Tribuna no link: https://diariotribuna.com.br/?p=5793

domingo, 1 de novembro de 2020

Os limites

Na minha casa havia um cata-vento. Aliás, eram dois: o primeiro eu mesmo fiz com lata de óleo de cozinha. Era pequeno. Eu o coloquei no canto da varanda. Seu eixo era de refil de caneta e funcionava bem. Criança, a gente costuma sobrevalorizar a própria capacidade. Pensando bem, ele não era tão bom assim.

Meu pai construiu o segundo cata-vento. Ele percebeu que eu me havia interessado pelo assunto. Pegou uma hélice de motor usado e a adaptou a um eixo de rolimã. Ficou bem feito, como todas as suas invenções. Foi colocado no poste em frente à casa. Por ser mais alto, ele rodava mais. Com o passar dos dias só ficou o grande: meu pequeno cata-vento enferrujou. Reconheci minha limitação.

Eu gostava de ficar olhando o cata-vento. Ora lento, ora rápido e imponente, seu movimento me fazia viajar pelas regiões de mim mesmo. Depois nos mudamos para a cidade e do cata-vento só ficou a lembrança. Mas ainda os admiro. Cata-ventos são precisos: cumprem aquilo para o qual foram feitos. Os gregos antigos chamavam isso de "excelência": o ato de algo ou alguém realizar com maior precisão possível aquilo que lhe é próprio. Pois bem, a excelência dos cata-ventos seria esta: acompanhar o vento. Não se preocupam em rodar ou em parar. Apenas rodam ou param.

Tenho vontade de aprender com eles tal ciência: fazer aquilo que me é próprio. Mas o que seria? Para falar a verdade ainda não sei. Até porque esse referencial clássico segundo o qual tudo e todos têm seu papel definido no universo já não cola mais. Hoje, com base em outras visões, sabemos que nossa existência é construída a cada dia. Estamos sempre mudando. O fato é que, pelo menos, já sei de várias coisas para as quais não “fui feito”. É um bom começo.

Nietzsche tinha uma formulação interessante para um bom projeto de vida: tornar-se o que se é. Novamente, não se trata de encontrar uma essência preestabelecida, como se cada pessoa nascesse com um roteiro, devendo apenas descobri-lo. O que o filósofo propunha estava mais próximo da ideia de autenticidade. Ajustar as ações, os afetos e as ideias àquilo que nos configura em nossa trajetória pessoal e não o contrário: praticar ações, cultivar afetos e ideias que nos são impostos ou que nos tornem estranhos a nós mesmos. Numa palavra: uma vida autoral.

No célebre romance Dom Quixote há algo interessante sobre isso. Miguel de Cervantes nos leva a acompanhar o fidalgo mudado em cavaleiro, tendo ao seu lado um lavrador que se transforma em escudeiro. As aventuras de Dom Quixote e Sancho Pança permitem as mais diversas possibilidades de reflexão. Gostaria de apontar uma: a ideia de limite. De modo geral, o romance todo é uma grande discussão sobre limites. Desde a história em si – uma vez que o protagonista deseja refundar um modelo moral e social que historicamente já não cabe – até uma dimensão mais profunda: o limite dos sonhos imposto pela dura realidade. Por isso a engenhosa construção do autor nos leva a um sentimento duplo: rimos de Quixote e, ao mesmo tempo, torcemos por ele.

Mas há uma cena especial que merece destaque. Quando Dom Quixote e Sancho Pança se encontram com um duque e uma duquesa, na segunda metade do romance. Sabendo das loucuras do nobre cavaleiro e de sua promessa feita a Sancho de lhe dar o governo de uma ilha, o casal, ávido por fazer troça dos visitantes, inventa um enredo enganoso, possibilitando que o escudeiro seja nomeado governador da ilha Barataria. É o momento em que Sancho ganha maior destaque na saga. Parte dos moradores conhece a farsa, parte não. Ocorre que o “governo”, que dura apenas dez dias, surpreende até aqueles que sabem do teatro. Sancho se mostra capaz de unir o saber popular de simples lavrador ao ofício de governar um povo. Mas o aumento das dificuldades e o estouro de uma guerra – também falsa – levam Sancho a um duro balanço de sua jornada até ali. Ele, que desde o dia em que decidiu seguir os passos de Dom Quixote sonhava em conquistar o poder de uma ilha, agora admite que isto está além de suas condições: “Não nasci para ser governador, nem para defender ilhas ou cidades contra inimigos que as queiram assaltar. Melhor entendo eu de arar e cavar, podar e plantar as vinhas, que de fazer leis ou defender províncias e reinos”.

A aparente derrota pode ser vista, na verdade, como grande conquista. Aliás, duplamente: Sancho provou para si e para os demais grande habilidade em diversos momentos do governo; em segundo lugar, mostrou-se sábio por reconhecer seus limites. Seu retorno à condição de escudeiro – que se articula diretamente com a volta posterior da dupla para casa – pode ser visto como lição de reconhecimento da própria condição. Sancho tornou-se o que era.

O leitor mais jovem poderá achar essa interpretação fatalista. Eu creio que não. Porque não se trata de retorno ao mesmo ponto: houve uma jornada, uma viagem, um aprendizado. Se Sancho não conservou o governo da ilha, ao menos agora governa melhor a si mesmo. O que, em termos filosóficos, é muita coisa! Conhecer-se melhor, reconhecer os limites: um desafio para todos nós. Não se trata de abandonar os sonhos, os desejos, os projetos, mas de ajustá-los às condições reais. O nome disso não é fraqueza, mas sim sabedoria.

 José Carlos Freire

Professor na UFVJM, Campus do Mucuri - Teófilo Otoni

Fonte: Publicado em 30 de outubro de 2020 no Jornal Diário Tribuna no link: https://diariotribuna.com.br/?p=5498

 

sábado, 17 de outubro de 2020

A felicidade II

Na crônica anterior propus uma reflexão sobre três modelos de felicidade. Gostaria de falar de outros três, lançando mão do mesmo esquema de divisão histórica – o mundo antigo, o medieval e o moderno. Desta vez, porém, farei o caminho inverso: partirei de nossos tempos, seguindo até a antiguidade.

Primeiramente, um modelo de múltiplas faces ao qual podemos chamar de ideal de vida comunitária alternativa. Desenvolveu-se, sobretudo, nos últimos sessenta anos. Há uma variedade enorme de manifestações que caberiam nesse referencial, desde os movimentos de contracultura nos anos 1970, passando pelas comunidades de cunho esotérico, até as atuais expressões mais elaboradas como as agrovilas e ecovilas, muitas vezes oriundas de movimentos sociais.

O que seria comum a essas modalidades? Independentemente do número de pessoas, famílias ou grupos que as compõem, as comunidades carregam essa marca essencial: são alternativas. A quê?  Sobretudo ao modo de vida capitalista, com sua lógica industrial, de competição a qualquer custo e de destruição do meio ambiente. Dessa resistência decorrem aspectos práticos como a produção coletiva, o consumo de alimentos orgânicos, a educação das crianças a partir de outros referenciais etc. Tentativas de forjar uma vida saudável e solidária, mesmo dentro de uma ordem social mais ampla que aponta para outra direção.

Quem se aproxima de tais comunidades ou simplesmente ouve falar sobre elas costuma ter uma reação mais ou menos esperada: são utópicas! Estou de acordo. A vida alternativa é um desafio gigantesco. Mas convidaria o leitor a, pelo menos, reconsiderar sua visão sobre essas iniciativas. Elas nos dizem algo muito sério: será que o modo de vida “normal”, a que a maioria se ajusta, de fato funciona? Para onde rumamos com os preceitos que regem nossa vida social? Talvez seja o caso de ouvir com mais atenção a provocação que nos vem da música “Balada do Louco”, de Arnaldo Baptista e Rita Lee: “Dizem que sou louco por pensar assim./ Se eu sou muito louco por eu ser feliz,/ mais louco é quem me diz e não é feliz”.

Regredindo no tempo, poderíamos nos deter em diversas manifestações ao longo da chamada Idade Média que, de algum modo, destoaram da oficialidade cristã. Enquanto esta se orientava pelo medo do pecado e pela ideia de purificação da alma, já que a felicidade somente se encontraria numa vida futura, muitos grupos se configuraram de outros modos. É o caso dos mendicantes, cujas expressões mais conhecidas são os seguidores de Domingos Gusmão e Francisco de Assis – para os católicos, “São Domingos” e “São Francisco”.

Tais grupos não estavam isentos de contradições e nem da marca institucional romana que era dominante. Mas havia algo mais interessante. É o caso de Francisco de Assis que recomendava práticas como o desapego de riquezas e honrarias; o cultivo da fraternidade; a contemplação da natureza como co-irmã do humano; e aquilo que, sem dúvida, era o mais profético: num tempo de pessoas sisudas e pregações ameaçadoras, Francisco falava da alegria de viver. É curioso que hoje, oito séculos depois, os valores defendidos por ele se mostrem ainda relevantes. Mais que o patrono da ecologia, Francisco de Assis é uma espécie de arquétipo do sábio, similar a outros místicos do ocidente e do oriente.

Por fim, recuando ainda mais, temos as escolas de vida que floresceram na Grécia antiga e posteriormente por toda a Roma. São chamados de “escolas” menos pelo conteúdo e mais pela forma de vida que procuram ensinar. Destaco uma entre elas que me parece muito atual: os epicuristas. O Jardim de Epicuro era o espaço educativo em que o filósofo divulgava ideias como o cultivo das coisas simples, a valorização da amizade, a consideração do sofrimento e da dor como inerentes à vida. Para ele todos deveriam se dedicar à filosofia, porque ninguém é demasiado jovem ou velho para buscar a saúde do espírito. Aí está um preceito valioso: o caráter terapêutico do conhecimento. Não essa ladainha que nos é imposta o tempo todo de aprender mais para competir melhor. Não. Para Epicuro, buscar o conhecimento é almejar a sabedoria, o que implica em um movimento duplo: admirar-se com as coisas simples e belas e, simultaneamente, desassombrar-se do medo do futuro. Além disso, o cultivo da sabedoria é uma maneira de superar ou suportar a hipocrisia das convenções sociais. Em síntese: uma maior tranquilidade da alma; hoje diríamos, quem sabe, um maior equilíbrio interior.

Para o epicurismo a vida pode se tornar prazerosa. Não por ser um mar de rosas e perfeita. Ela continua difícil e complicada, mas nossa postura diante dela se modifica: passamos a experimentar os momentos bons com mais profundidade e os momentos difíceis com maior serenidade. Assim, nosso ânimo fica predisposto a aproveitar os períodos de prosperidade, alegria e saúde; da mesma maneira como nos preparamos, sem ansiedade, para as fases de dificuldade, tristeza e doença. Isso tudo cercado de boas amizades e meditação.

São três referenciais de busca da felicidade. Nenhum deles, certamente, capaz de nos dar todas as respostas. Mas pelo menos nos oferecem caminhos. O leitor certamente terá encontrado pontos de contato entre as comunidades contemporâneas, as medievais e as antigas. Talvez pelo fato de que, apesar da força do modo de vida que impera em uma época, habita em nós um anseio por autenticidade, por profundidade. Talvez haja, nas brechas do cotidiano e nas “falhas do sistema”, trilhas possíveis de uma existência alternativa.

 

José Carlos Freire

Professor na UFVJM, campus de Teófilo Otoni

 

Fonte: Publicado em 16 de outubro de 2020 no Jornal Tribuna Diário no link: https://diariotribuna.com.br/?p=5053  

Vídeo do Lançamento da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Mucuri - Volume 4

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